
neste preciso momento é o que sinto. tal como porventura o facto de me estar agarrar a algo que não existe.
A crise tem piada. Tem piada pelo seu ridículo geral. Há menos dinheiro. Ai há? "E os preços sobem." Há! Então se há menos dinheiro, vamos mas é subir os preços! Pois claro. Pergunto-me é para quê. Para se comprar ainda menos? E se se comprar ainda menos... os preços vão subir mais (?) E se deixarmos simplesmente de comprar, espera, não me digam que vão meter o pacote de leite da "É" ao preço de um ipod? Ridículo por ridículo, eu até me ria disso. Ok, se calhar estou a exagerar. Vai na volta sou eu que sou uma má língua e venho para aqui falar do que não sei. Mas aí é que vocês se enganam! Sei muito bem o que é a crise. Agora que venha a derradeira pergunta tão ouvida: Mafalda, tu "sentes" a crise? E eu vou responder: Eu não, o meu ego sim. Aliás, o meu ego está cada vez mais numa depressão exaustiva que nem se lhe aguenta. A mim não me falta nada, verdade seja dita. (e faz confusão dizer isto) Tenho, como se costuma dizer, "comida e roupa lavada"! Mas a minha vaidade anda transbordante de sede de pagar aquilo que não tem. E o meu corpinho e organismo sedento das suas futilidades das marcas. Eu até meto em causa que eu seja um pouco picuinhas, mas as coisas são diferentes! Falo de qualidade do material, nem falo do «giro» ou não. Não me venham dizer que um casaco cor de rosa da Primark (por exemplo) e um casaco cor de rosa da Mango (por exemplo) é a mesmíssima coisa. Não é. O tecido, a qualidade do tecido é diferente. Paga-se mais, mas por algo melhor e mais duradouro. Dou outro exemplo banal: eu paguei três euros por uns óculos de sol verdes ás riscas na Primark, onze euros por uns óculos amarelos a aviador na C&A e quinze euros por uns óculos brancos e rosa de massa da Claire's, tudo mais ou menos num espaço de 3 meses. Quais são os que ainda existem? Os da Claire's. Não quero fazer propaganda a porra de marca nenhuma, nem incentivar a comprarem as ditas marcas boas em vez da feirinha ou da loja baratucha (que agora até essas deixam de o ser). Mas, não compensa comprar mais caro? Os meus óculos verdes duraram duas semanas e pouco! Os rosa e branco ainda estão como novos. "Oh Mafalda, tu não tens é cuidado com as coisas." Bem visto, é verdade, não tenho lá muito. Mas trato-os todos por igual, o pouco cuidado que tenho com uns óculos tenho com os outros dois também. Portanto, caro governo, ministro da economia, vendedores e afins, vamos a baixar os preços. As minhas mãos já suam só de entrar na Desigual, ver aquela roupa que é cem por cento a minha cara, vestir uma camisola de oitenta euros e ter de a deixar por lá porque o meu cartão de crédito está fraquinho. "Talvez nem sempre, mas maioritariamente todos nós temos oitenta euros na carteira por mês." Têm? E quem o dá? Os meus papás a mim não me dão dinheiro. E mesmo que mo dessem, não posso gastar tudo numa só peça de roupa. Sou capaz de "armazenar" dinheiro. Se for preciso sei ir juntando. O problema é que eu preciso sempre de qualquer coisa - o único sitio onde não gasto dinheiro é em sustento para o meu peso - e na verdade o meu ego precisa. A minha mãe diz que eu vivo noutro planeta. Mas vejam, alimentos! Não tem um sabor diferente de marca para marca? De superfície comercial para lojinha de esquina? Eu tenho culpa de haver coisas que gosto compradas num sitio e outras noutro? Háde calhar alguns serem mais caros e as outros mais baratos. Eu cada vez como menos! Menos variedade (e por acaso isso anda-me a preocupar). Eu não como peixe, para mim peixe é intragável. Há quem não como carne e seja vegetariano. Eu não como peixe, olha, também sou gente. Não gosto de legumes, acho que devem muito ao sabor, portanto não como. Nem doces nem toda uma montra de pastelaria (tirando a preciosidade do chocolate e do mil-folhas). Em relação á carne também estou a deixar de comer algumas coisas. Sou contra a alimentação á base de animais, e isso sobe-me tanto ao cérebro que pouco a pouco vou excluindo alguma variedade da minha ementa. Mas não como verduras, portanto não posso ser vegetariana. Solução: não como. E se como pouco da tão imensa roda dos alimentos, ao menos que me deixem comer daquilo que gosto. Estou farta da crise e do seu grande escândalo nos media. Dou uma sugestão em relação a roupa: Façam uma loja do estilo Primark ou C&A/Clock House, mas com material bom e uma variedade de bom gosto estético. As pessoas gastavam em mais coisas o mesmo que gastam numa só peça numa outra loja. Em vez de comprarmos umas calças a quarenta e cinco euros compram duas e uma t-shirt, por exemplo. Isto também em relação á tecnologia. Preciso de um flash para interiores, de uma lenta mais ampla e de um tripé médio para a minha bichinha e ainda não tenho nenhum dos três. Eu não me governo com uma lente de 35-70mm e outra de macro! Tenho a mania das grandezas se calhar. O meu avô diz que um dia vou cair do cavalo. Mas eu não consigo tolerar o baixar de braços e aceitar o que este país tem que nos fazer engolir. Talvez eu me chateei para nada, porque no fim das contas andei revoltada para continuar tudo na mesma. Mas nessa altura logo se verá. Hei de ter as coisas como acho que não só eu, mas todos devíamos ter. E não será o passo do país pelo corredor da morte, epidemias financeiras ou crises mundiais que me vão tirar esta ideia da cabeça. O mundo só está assim porque as pessoas o quiseram. Sempre fomos livres, se estamos no purgatório foi por opção nossa (nós o mundo) ninguém nos obrigou a nada.
Eu nunca esperei que a manhã chegasse. Para mim, apenas a lua se punha no varão do horizonte. Era iluditório que o sol espreitasse, seria demasiada fantasia para a pele arrepiada, gretada, com varizes e rugas da velhice. Mas chegou. E mentia se não admitisse que me esquentou o sangue gélido. Já não sou menina, nem sequer esposa. Sou viuvá e mulher velha. Moro em arredores da Amareleja, a dita terra em que o sol se exprime tão forte, e eu, nunca vi o sol. Não o da minha alma. Da minha própria alma.