
Para crescer é preciso alimentar. E não vão ser esses olhinhos azuis a fazer tudo.
Ainda assim és a seiva que extraiu da minha árvore da esperança. E és doce, doce.
Ainda assim és a seiva que extraiu da minha árvore da esperança. E és doce, doce.
No outro dia "chamaram-me atenção" em relação a ti. Uma observação inocente mas que me fez sair de onde estava com as lágrimas a tentarem ferrar-me os olhos. Porque a palavra meu vem sempre antes do teu nome, quando eu falo. Juro por tudo que nunca tinha notado. Nunca tinha dado por nada. Meteste-me maluca, e espero que tenhas bem noção disso.
Saí do carro de expressão carrancuda e fechada. Nem olhei para ela. Dirigi-me à traseira do Agila e abri o porta-bagagens. Tirei o meu saco da Fnac com a minha mala para a maquina fotográfica e o saco do continente com as minhas ultimas duas aquisições de cremes Nivea e Garnie. Fechei-a com força. Ela disse-me "Adeus, até amanha". Não olhei para ela mesmo assim, atravessei a estrada e desci com dificuldade a escadaria escorregadia. Ouvi o carro arrancar, e muito baixinho soava Adriana Calcanhoto do rádio dela. Apetecia-me gritar, alto para que todos me ouvissem, e mandar os sacos das compras fora, sentar-me na escada e deixar as lágrimas avermelharem-me os olhos. Mas não o fiz. Tenho demasiado a mania para o fazer ao pé de pessoas que não conheço de banda nenhuma. Por isso deixei-me só olhar o carro desaparecer na curva logo a frente, e como pontapé violento na consciência imaginei se ela tivesse um acidente. Arregalei os olhos e chamei-me nomes «Estúpida, para que é que estás a pensar assim?». Desci o ultimo degrau da escada e andei pelo passeio. Tinha a cabeça cheia. Mais que o meu saco da Fnac com aquela mala preta enorme. Tenho a porcaria da maquina a tanto tempo e ainda não tinha comprado a porcaria de uma mala para a levar e guardar mais protegida. Devia estar a espera que ela se estraga-se ou assim «Estúpida, já tens a mala porque é que estás a pensar nisso?». Lembrei-me então de novo dela. Há muita coisa que nunca lhe disse. Ao contrario dela, que me diz tudo sempre que o tema é ofender. Eu ao menos calo-me. Se abro a boca é para discutir. Naquele momento apeteceu-me dizer-lhe coisas. Dizer que apesar de ela não me perceber, de não aceitar a minha forma de ver as coisas, não compreender os meus sonhos, as minhas ambições, achar que sou fútil e feita á base da imagem, que embora ela pouco fizesse por mim, o não me dar o valor devido e importância suficiente para tomar decisões de maior porte para além de a ajudar a comprar camisolas, o eu travar autenticas batalhas para a tornar mais importada com a aparência e feminina ela achar que a estou a chamar de feia e gorda, que apesar de ela não confiar muito em mim, não gostar dos meus amigos, me achar influente e uma miúda pequena despreocupada com o futuro, me deitar constantemente a baixo, e achar que sou diferente deles todos por imbirrância e achar que tenho vergonha de poder vir a ser as pessoas que eles são, e achar que o caminho que estou a seguir me vai levar ao fundo do poço... que ela é minha mãe. E que há quem tenha uma pior que ela, que apesar de tudo aquilo não deixo de gostar dela e que ela tem muitas qualidades. Que não aceito certos pontos das suas personalidades porque podem ter boas virtudes mas têm imensos defeitos. Que não tenho vergonha deles, apenas quero ser o melhor que puder e á minha maneira. Que gosto muito dela, mas que nunca mudaria por ela.
1. Dizem que "quem ri por último ri melhor", na minha opinião acho que não se ri assim tanto. Porque se riu em último foi porque não percebeu a piada e ri-se para não parecer mal.
Ele espumava da boca, á velocidade do leite do pacote a cair no copo de vidro. O stress instalara-se na casa, naquele pequeno pedaço de paraíso estético. Seria-o também emocionalmente se não fosse tais anomalias frequentes na saúde das crianças que por lá habitavam. Era fim de tarde, e a noite anunciara-se longa e desconfortável. Era uma cabana, madeira gasta, farrusca e aparentemente desarrumada. A criança estendera-se involuntariamente no chão, caíra como peso morto e fizera um estrondo. O vaso caiu, a outra criança, uma das meninas, chorou. Não pela criança a morrer, pelo vaso partido. Não gostava de agua, muito menos perto de si. A criança no chão fixava o olhar no tecto. Curiosamente aquela madeira no tecto ainda tinha cor de madeira. A madeira que nos filmes só tem aquela cor no Natal, para dar um ar mais festivo e os tons de castanho acompanharem o vermelho e os dourados. Jogos de cores para atrair o consumismo. E a criança no chão. Não a pensar nisto, nem em nada. Está a morrer, devagar mas sofrendo mais do que a tenra idade lhe tinha alguma vez permitido pensar ser possível. Chegou outra criança, expressões vazias, contornos pouco definidos e cabelo ruivo. Gatinha o mais que pode para ao pé da criança que morre. Chama por ele, deita-se ao seu colo. Faz, sem o saber, pressão no tronco, e mais difícil é respirar. Mata-a mais depressa, então. A criança que revira os olhos e expulsa liquido da boca agradece. Quer que acaba a dor retorcida no seu interior, seja de que forma for. O rapaz mais velho, ainda que criança de cabeça igual a dos outros, entra no corredor. Vê a cena, deixa cair o garrafão da agua sem tampa que carregava para a casa de banho. A criança com medo da agua entra em pânico total. Grita como se lhe tivessem a espetar laminas nas costas. Produz uma expressão de terror no olhar assim que a agua atinge os seus pés descalços. Corre e pisa a criança quase morta. O bebé no colo desta rebola para o lado, mete para se segurar a mão na saliva que escorreu da boca da outra para o soalho. Limpa-a ao casaco rendado velho e grande para o seu minúsculo tamanho. A porta estragada da rua abre. Chegam as crianças gémeas, a tensão sobe. Têm deficiência, ambas, de igual amplitude de gravidade. Que é muita. Não se apercebem do real da situação, correm para a criança que espuma da boca, sorrindo, como se de um jogo se trata-se. Está morto.