sábado, 12 de setembro de 2009

anteontem.

Nada me soube melhor que as saudades que tinham minhas. Ainda que a vossa masculinidade idiota não vos deixe admitir em voz alta, sentir cada toque e olhar enternecido vosso, deu-me a alegria superior a de um verão inteiro repleto de novidades. Recheou-me de certezas os espaços que estavam perder a cor cá dentro. obrigado a todos, e em especial ao meu bruno.

pelos onze anos juntas,

amo-te mulher da minha vida.

alegorias.

Como comer mel sem sentir o odor. Como caminhar sobre agua de saltos altos. Sem desmoronamentos. Comer muito sem enjoar. Como lenha a queimar sem arder. O relógio faz ruído mas não anda. O sol atinge a pele e não bronzeia nem queima. A boca sempre mexeu, mas o som nunca aprendeu a fluir.

domingo, 30 de agosto de 2009

« enquanto durar, é ir ás nuvens e voltar. »


É um clássico. Com todas as particularidades que lhe pertencem. Há drama, há paixão, risco, pecado, crime, há medo e muito, muito sabor. Pontos que cada vez mais se recolhem para as suas papilas gustativas. O sabor deste clássico tirado das telas de cinema sabe-lhe bem. Dançam noites foras, perdidos no luar que se sentou confortável na linha do horizonte. Toca o disco de vinil; nunca escutará antes este som. O amor pelo homem mais velho. Dois elementos que o mundo julga incompatíveis, como fogo e agua mergulhados numa bolha de sabão. Um enlouquecer de desejo mútuo. De primeiro grande amor a um e o apaixonar pela imaturidade doce de outro. Ainda está quente o sentimento, ainda não saiu do lume e há que ser cauteloso. O receio de perda é subconsciente. Ainda assim afirma felicidade. Porque tal como os desafinados também cantam, os clássicos também podem ser surpreendentes e tão, tão bons.

à Vera, que ainda que esteja receosa, estou contente por ela.

sábado, 29 de agosto de 2009

detalhes da tua ausência. X

Que venha a mudança auto destrutiva, que venha alguém capaz de resgatar o meu e o teu coração num embarque veloz pelo Sado. Que o areal do tempo na ampulheta escorra velozmente e o contacto termine como terminou a vida de Camões, que o conto de um seja preenchido por um amargo sufoco do veneno do fel, e que a do outro alcance o auge da harmonia translúcida das iguarias mais doces. Que o ódio surja determinado e cruel e nos afaste, que se aproxime a angustiante doença, a duradoura tristeza, e pior, que a mártir queda chamada morte embata forte como as sinfonias de Beethoven. Oh tanto faz. Jamais um simples abraço me saberá melhor que o nosso. Nunca, afirmo eu de cabeça levantada, um aconchego sincero que não o teu, me dará a exacta vontade de lacrimejar de felicidade e me fará sentir de novo tão menina.

sábado, 22 de agosto de 2009

(...)

«Promise yourself to be so strong that nothing can disturb your peace of mind. Look at the sunny side of everything and make your optimism come true. Think only of the best, work only for the best, and expect only the best. Forget the mistakes of the past and press on to the greater achievements of the future. Give so much time to the improvement of yourself that you have no time to criticizeothers.Live in the faith that the whole world is on your side so long as you are true to the best that is in you!»

Para a Diana

espaços vazios.

Tamborilou os dedos magros de unhas vermelhas na mesa de vidro transparente. Estava silêncio, não só no salão como em toda a casa. Um casarão daqueles não deveria ser só para duas pessoas, pensou. Sentiu um sabor amargo na boca. Era uma casa vazia por sua culpa. O amargo passou da garganta para o peito. Nunca nos darei um filho, ecoou-lhe na cabeça e deitou esta no tampo da mesa e brincou com um apanhado de cabelos. Uma gargalhada quebrou o silêncio e fê-la levantar a cabeça para procurar o rosto do marido que ria para o ecrã do portátil branco. Estava a ver pela câmara-web o seu mais recente sobrinho a fazer bolhinhas de saliva. Ela sorriu ao marido, mas este estava demasiado deliciado para reparar. Nunca o viria a dar aquela gargalhada para o seu filho ou filhos, herdeiros daquele casarão comprado sempre a pensar nas crianças que viriam um dia do ventre dela. Ainda não teriam eles tido conhecimento de que ela era estéril. Que por meio biológico nunca teriam nem uma criança sequer. O seu maior sonho sempre fora ter filhos, dois rapazes e uma rapariga - que seria a menina dos seus olhos. E agora isso seria impossível por a mulher que ama não conseguir engravidar.
Ela puxou a cadeira para mais perto dele, queria-lhe ver o rosto. Estavam casados à dois anos. Ainda somos umas crianças nisto, pensou, arrastou os pensamentos para as infinitas conversas ao longo de serões nocturnos no sofá em que ele lhe dissera que não estava triste por não puder ser pai, porque casara com a melhor criança que conhecera em toda a vida. Não era um insulto, muito menos uma deixa para originar discussão. Antes pelo contrario. Ela gostava de escuta-lo, e por isso enroscava-se mais no corpo do marido a procurava no peito o som do coração a bater. Era bastante irrequieta, perdia-se a ver desenhos animados de manhã e tinha um sorriso doce e juvenil. E era exactamente isso que mais o apaixonava nela. A fragrância da maturidade com a postura infantil.
Olhou em redor, meteu uma perna por debaixo do rabo na cadeira, estalou os dedos, murmurou aborrecida por se ter esquecido de meter a roupa a lavar, voltou a deitar a cabeça, cantou baixinho o refrão da Lost da Grace enquanto marcava o ritmo com um dedo a bater num cantinho do portátil. Ele olhou-a e arqueou uma sobrancelha, ela sorriu-lhe e continuou a cantar de tom baixo. Gostava de a ouvir cantar, lembrou-se a si mesmo, a voz dela é como mel. E sorriu em troca e voltou a colar os olhos na sua caixa de e-mails.
- Porque é que não adoptamos? sugeriu ela. Ele fez-se de despercebido – Um cão? - Não, uma criança. Temos condições financeiras para adoptar um orfanato inteiro. Temos uma relação estável e tanto a minha família como a tua se dão bem e nos apoiariam no processo. O rosto dele mudou de expressão. Tornou-se fechado e sem emoções. - Não quero um filho de outra pessoa. Se... se não podemos ter um do nosso sangue é porque é para ser assim. Só nos dois. Sentiu-se culpada e os olhos encheram-se de água. Mas ele estava demasiado magoado para naquele momento as lágrimas dela lhe tocarem. Desligou o computador e levantou-se, ela fungou, abriu a boca mas voltou a fecha-la. - Pega no cartão de crédito e compra um bicho de estimação qualquer. Voltou-se de costas para ela. - O que não falta é espaço.
Mas o seu peito é como esta casa, compreendeu, haveria sempre um espaço por preencher.