Ela quis dizer muita coisa. Mas o tempo nunca foi um dos pontos fortes da vossa relação. Ela deixou de pintar o cabelo de ruivo por ti, por teima tua de que o seu preto natural lhe ficava melhor. Devias estar cego para não veres que lhe fazia parecer tão mais velha. Ou talvez ate te tenhas esquecido que ela ainda era praticamente uma miúda. E nunca quis enterrar as poucas fragrâncias infantis que tinha a bombear-lhe sangue lá dentro.Ela nunca olhou para ti como uma bóia de salvamento, ainda que de certa forma o tenhas sido, ela estava carente de colo e tu pegaste-lhe sem pedir nada em troca. Ou pelo menos, no inicio não exigias nada. Só os sorrisos simples, as caricias, os passeios. Sinceramente, ainda hoje não percebi o que fez com que mudasses. Tiraste-lhe do poço onde se afogava, mas enfiaste-a noutro quase parecido. Tiraste-lhe a liberdade, e ela que nunca foi de grandes esperanças para ela própria percebeu que havia limites, que tu não podias simplesmente proibir. Quantas noites foste o motivo para quedas dela? Quantas manhãs lhe iluminaram o rosto e os olhos inchados do choro? Ela daria a vida por ti. Deu-te tudo o que tinha e não tinha. Mas tomaste-a como certa, como um robot que recebia as tuas ordens e as cumpria sem vacilar. E agora estás aí, sozinho, a fazer sabe-se lá o quê e em que estado. (...)



