domingo, 11 de abril de 2010

Ow! #3

queima, não queima?

Que a chama branca me queime os cabelos e me arrepanhe a pele até ela desfigurar. Que a angustia sistemática de um pulmão negro me faça tossir sangue e respirar fumo tóxico. Que mãos sem dedos se esfreguem sexualmente em minhas pernas e eu nem pestaneje. Que nas feridas que tenho no peito seja esguichado álcool e a carne borbulhe com um tremor incontrolável. Que me esbofeteiem a cara com anéis pontiagudos nos dedos fechados em punhos serrados violentos. Que me lancem ao mar já morta e descomposta. Nua, magra, fria e branca e eu mesmo assim vos sorria com o sarcasmo que me ensinaram.

Dear city,
é incrível a facilidade com que o nosso próprio mundo nos consegue cair em cima e destruir tudo aquilo que somos, aquilo de que gostamos, aquilo por que lutamos. É um processo comprometedor este: a luta árdua para conseguir manter a linha da vida estável. Não a rasgar, não a desfiar, não a inclinar... É quase impossível, mas já ouvi histórias de quem o conseguisse. No inicio julgamos que o horizonte é o destino, quando crianças, quando inocentes. Mas a linha vai crescendo e nós descobrimos que já é uma sorte alcançar os primeiros grãos de areia e que o horizonte com o oceano lá ao fundo é destino impossível. Sempre me disseram que a verdade doí, mas a mim sempre me doeu mais o engano e a ilusão.

Há dias assim...

... em que nem vale a pena acordar. Hoje sem dúvida foi um desses dias.