domingo, 29 de agosto de 2010

amor também é... futuro.

Ele fechou a porta e saboreou, passando com a língua pelos lábios, o beijo de despedida que tinham trocado tão docemente. O coração dele encheu. Amanhã estariam novamente juntos, isso é verdade. Mas o amor dele crescia demasiado rápido para sequer aguentar tantas horas sem sentir o corpo dela novamente junto ao seu. De ouvir o som mais bonito de sempre, o da sua gargalhada, e de a olhar bem naqueles grandes olhos verdes e ver que ela realmente está bem, e acima de tudo, que é feliz consigo. Sentou-se na berma da cama quando já se encontrava no quarto. Sorriu. Queria uma vida a seu lado. E para ele era ainda um pouco estranho esse tipo de pensamentos, era jovem e independente. Como seria viver só ele e ela? Não sabia, mas queria-o muito. Queria acordar ao seu lado todos os dias, e adormecer com o corpo dela a parecer tão pequeno comparado com o dele. Queria afagar-lhe o cabelo arruivado sempre que ela não conseguisse adormecer e fazerem amor sempre que ambos tivessem tal vontade. Queria almoçar e jantar com ela, apreciando a forma cuidada como agarra nos talheres. Ela é vegetariana e isso seria um problema, mas nada que não se resolvesse. Sabe de cor cada gosto dela, cada detalhe do seu corpo e da sua personalidade. Sabe que embora seja bastante desorganizada odeia atrasos, que não gosta de muito calor e odeia o frio. Sabe que o seu cheiro preferido é o da hortelã e adora tons quentes e primavís. Sabe que a sua grande paixão é sem dúvida o fundo do mar, e fazer mergulho. Que se perde fascinada e nostálgica ao ver todas as espécies possíveis de peixes em seu redor enlaçando-a, e toda a imaginação lhe escorre pelos poros debaixo do fato de mergulho. E por vezes, o quanto isso o preocupa, quando ela demora mais tempo do que devia lá debaixo e o coração dele lhe cai nas mãos. Uma vez trouxera-lhe um grande búzio das profundezas, e ele comovido mas sem jeito como é habitual, aceitou aquilo como a melhor prenda que poderia ter recebido. Sabe que ela tem uma marca de nascença em forma de folha no antebraço, e que não consegue dormir com as janelas abertas porque tem medo - e ele queria tanto ser o homem que a protegeria desses pequenos medos... Conhece-a como ninguém, tal como a ama mais que qualquer outra pessoa no mundo. Amava-a a ponto de querer um filho seu. Logo ele que nunca quis ter filhos porque acha que não se entenderia com crianças pequenas. Mas ele por ela faria tudo, e sabe que ela igualmente daria tudo por ele. Então saiu de casa decidido, de sorriso largo no rosto e olhos firmes mas felizes, ganhara finalmente coragem. A sua postura fulminava nervosismo, ansiedade e muito muito amor... Iria pedi-la em casamento, de uma vez por todas.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

19:35

"(...) That's how much I feel,
feel for you baby.
How much I need,
I need your touch.
How much I live,
I live for your love. (...)"

cor e mais cor.



Unhas dos pés azuis escuras. Mãos também, gosto muito. Ultimo dia de código, que bom. Chatices em casa. Os piores dias para uma mulher. Horrível. Muita música. Ansiosa pelo mês que vem. Muito em que pensar. Ovos estrelados. Três aniversários importantes a caminho. O quarto continua por arrumar. Cansada do interior do roupeiro. Quero, quero muita coisa. Dores nos ossos. Novas leituras. "O recife". A inspiração voltou. Estou apaixonada. Estou mesmo apaixonada.

amor também é... escolhas.

Deram as mãos, e ela, ao sentir aquele arrepio desconfortável na alma, apertou-a com muita força. Era difícil de aceitar. Aquelas três noites seguidas a chorar de pouco ou nada lhe tinham servido. Tinha decidido sim. E já não havia nada a fazer. No fundo, era o seu sonho. Até que ponto se é capaz de escolher entre um grande amor e um grande sonho? Mas ela escolhera. Escolhera aceitar a proposta de trabalho e ingressar para os Estados Unidos da América. Iniciaria no estrangeiro a sua carreira como manequim, com o seu nome numa das agências internacionais de maior gabarito actualmente. Era impossível não aceitar. Lembrava-se agora da chamada, enquanto caminhavam pela calçada junto à praia, num silêncio cuidadoso. Berrara um sim imediato quando ligaram a convida-la, e os olhos brilharam com uma felicidade imensa. Mas ao desligar o telefone deixara-se cair no sofá e chorou como nunca antes tinha chorado. Era um sonho e um pesadelo numa fusão frenética e ela lá bem no meio, forçada a escolher.
«Odeio escolhas.» disse-lhe por fim, ainda de cabeça baixa. Ele olhou para ela, abriu a boca mas de imediato a fechou. Que poderia ele dizer? Também ele odiava que ela tivesse tido que escolher. Queria-a feliz, mas ao seu lado também. Chegaram ao fim da meta, e também a luz do sol chegava ao fim. A noite já era mais presente que o dia, ficando a temperatura um pouco fresca. Sentiu então a despedida aproximar-se. Abraçaram-se, e segredaram infinitas declarações de amor ao ouvido um do outro entre lágrimas dela e apertos revoltos no coração. Os olhos dele pareciam ocos, e o seu interior deveria estar exactamente igual. O corpo dela latejava, sentia-se quente e fria ao mesmo tempo. Amanhã, muito cedo, provavelmente ainda sem o sol florescer de novo, ela estaria nas escadarias do aeroporto com a mãe, numa outra despedida e por fim, pronta a voar. E o pior eram as incertezas de seu regresso. Sem datas, sem conhecimento da próxima vez que conseguiria comunicar com Portugal. Tudo isto só lhes aumentava a angustia. Disseram coisas que nunca tinham dito antes. Murmuraram palavras como "eternamente" e "nunca", palavras que ainda sendo o seu significado uma realidade incógnita, na altura era o que realmente sentiam e necessitavam de dizer. Trocaram beijos e ele passou-lhe os dedos desajeitados infinitas vezes pelos caracóis escuros dela. Adorava-os. As suas formas, o seu volume. O quanto lhe ficavam bem e a tornavam ainda mais maravilhosa. Ela encostou a cabeça no ombro dele e encostou o nariz ao seu pescoço, procurando sossegar um pouco. Como é que iria viver sem o cheiro dele? Sem aquela fragrância entre homem e amêndoas doces... Beijaram-se pela ultima vez. Os lábios termião, de saudade e de amor perpétuo, as línguas guerreavam entre a paz e o adeus. Ele afastou-se, num acto de racionalidade, não querendo continuar alimentar o aperto amargo que tinha nas entranhas. Mas ao levar a mão dela aos seus lábios, fechou os olhos e chorou por fim, pedindo-lhe quase ajoelhado que não fosse para longe dele. (...)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

amor também é... preocupação.


Ele reparou de imediato no corte fundo na sua mão. Os olhos embaciaram-se de raiva e preocupação. Simplesmente não conseguia suportar a ideia de que alguém a magoasse, de que aquelas mãos brancas e frágeis tão bonitas estivessem marcadas daquela forma. O seu interior contorcia-se e levou-lhe as mãos ao rosto. Os olhos dela começaram a lacrimejar, como que um socorro calado saísse de dentro daquele castanho profundo. Era ele o seu amparo, e ela o dele. As palavras não saíam, sentia a garganta seca e um aperto doloroso no coração. Amava-la. Como poderia permitir que alguém lhe metesse as mãos em cima, lhe fizesse mal sequer? Abraçou-a com força contra o seu peito desnudado e por fim, ainda que a voz soasse fria e esganiçada, jurou-lhe que nunca mais ninguém a magoaria. Nunca mais. Ela correspondeu ao abraço e depois beijou-lhe o queixo. Engoliu um ou outro soluçar do nervoso miudinho e acalmou. Por vezes poderia parecer exagerado, mas toda aquela preocupação nele era sem dúvida deliciosa. Gostava de se sentir assim, mimada e protegida. Dentro do bom sentido. E também ela o amava e se perdia nos seus braços. Por fim conto-lhe o que aconteceu, e ele dentro dele, rasgado pela fúria e a dor, jurou vingança. Sentiu aquele golpe na mão dela como se fosse em si. Ou talvez custasse ainda mais, por ser logo no seu bem mais precioso. (...)