domingo, 23 de dezembro de 2012

suspiro.

Talvez eu já não saiba escrever. Ou talvez eu nunca me venha a esquecer do doce que é exprimir-me, por mais tempo que esteja sem o fazer. As vezes tenho saudades de mim, do que era, de chorar desta forma sempre que escrevo. Eu escolhi um caminho para mim, e embora esteja feliz todos os dias da minha vida, se paro, sinto uma imediata ausência de algo. Há um pequeno "eu" dentro de mim que grita, chora e pede-me que siga o que me vai no sangue. E se eu nunca concretizar o meu sonho? E se um dia eu me perco neste mar de coisas superficiais e sem conteúdo e me esqueço do prazer da simplicidade? Se perco a pouca coragem que tenho de me afirmar, como amante, como mulher, como pessoa que vive das palavras que lê e escreve. Ou que escrevia... Quem disse que podemos ter o melhor de dois mundos enganou-se - mas queria eu com todo o meu coração que estivesse certo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

mundo ímpar.



E depois regressamos à ambiguidade das situações, e vemos que tudo muda. Tantas vezes para pior, algumas para melhor. É a impaciência uma virtude que não nos permite estar sem lutar, sem querer, sem desejar. É um novo olhar de soslaio aos defeitos e as qualidades, é o querer-mais-do-que-tudo sempre com demasiado coração e pouca cabeça. Se a cabeça um dia me cai, pego num barco e percorro o mundo. Tenho o coração em todo lado e em lado nenhum.

sábado, 28 de julho de 2012

mais das letras.


É curiosa a velocidade com que me apaixono. Já não tanto pelas pessoas, mas pelas palavras. Ainda assim, até pelo ser humano, há sempre aquele amor - aquela seta que nos trespassa. A verdade é que ando a ler, e quando leio sinto-me outra. Outra igual a mim, mas mais humana, mais sensível, mais ansiosa, mais tudo. Só o cheiro das folhas dos livros encantam-me de uma forma inexplicável. Pena eu ser tão selectiva  com as palavras de quem leio. Ainda que sempre tenha lido muito, tenho os meus escritores de eleição e tenho muita dificuldade em ir por outros caminhos porque não há nada que me angustie mais que me desiludir com as palavras e historias de alguém. Pois as palavras são, tal como os nossos olhos, o reflexo da alma.

domingo, 22 de julho de 2012

O filme, que foi um livro.

Há mais de uma ano atrás quando me pediste para ver o filme "Dear John" porque era em parte um reflexo nosso, eu senti-me completamente dividida. Por um lado fugi desse teu conselho porque senti que, de alguma forma, me iria magoar a um nível pessoal e eu não precisava de sofrer mais; mas por outro lado achei-me superior a esse tipo de sentimentos - de me emocionar ao meter na pele de alguém de um simples filme. Então escolhi não o ver. Com o passar do tempo, quando comecei a ler muitos dos livros do Nicholas Sparks descobri que o Dear John, mais que um filme, foi primeiramente um livro. E eu, mulher das letras e das palavras, achei que aí já merecia toda a minha consideração. E agora vejo que fui arrogante. A verdade é que, passado todo este tempo, ontem comprei o livro, e hoje acabei de o ler. E só te posso dizer que o odiei... Porque não acabou como eu queria, porque chorei como choro em tantos livros que leio, mas desta vez chorei com uma mágoa muito mais interna que o costume. Detestei o final porque não acabou como eu queria, e isso só por si tem muito que se lhe diga. Porque para mim não houve um final feliz, e isso é tão irónico que nem tenho palavras. Exagerando um bocadinho nas palavras: é um pouco como se não gostasse da minha vida, e do meu futuro.
Ainda que me pudesse ter posto na pele do personagem que me competia, o meu coração não a escolheu a ela. Chamei-lhe nomes, desejei quase que ele se fosse embora, que "ele" a deixasse porque ela não o merecia. Não quero dizer que me vi um pouco ao espelho, porque isso seria demasiado, pois as coisas na realidade não são bem como nos livros. Mas senti que me podia odiar a mim própria novamente, como já me odiei tanto a muitos anos atrás quando tudo se fechou entre nós. Pude provar mais uma vez aquilo que talvez tenhas sentido, e doeu como antes. Ainda não sei dizer se estou arrependida ou não de ter lido o livro... Não deixo mesmo assim de sentir que floresceu em mim de novo aquela admiração que tinha por ti e pelo teu lado mais intelectual e psicológico. E de admitir que só tu, neste mundo inteiro, me aconselharias a ler a história de um livro como forma de compreender as coisas. Senti, mesmo passado todo este tempo, que me conhecias melhor que ninguém. E que embora agora as coisas sejam como são, se um dia voltássemos a ter uma relação - mesmo que de amizade - eu não tenho a mínima dúvida de que voltaríamos a ser o espelho um do outro. Seres tu o meu livro de instruções como eu sempre disse.
Independentemente do que sofri quando acabei de ler o livro, e de ter chorado e sentido estas emoções todas de novo, tenho de te agradecer porque chorar assim tem tanto de doce como de amargo - e lá no fundo, só eu sei o quão isso me faz sentir viva.

sábado, 7 de julho de 2012

o pior dos inimigos

O maior inimigo da humanidade são as pessoas. O maior inimigo da insegurança é a solidão. O maior inimigo da perfeição é a ausência dela. E o meu maior inimigo sou eu própria. São as palavras que teimam em não sair, ou sou eu que já não procuro por elas. É esta pontuação contida, particular, justificada - é a letra bonita e a falta de conteúdo. São os espaços brancos entre as palavras, é a falta de agonia ou o afastamento dela, o seu encobrimento porque sempre foi mais forte que eu e nunca se há-de ir realmente embora. Eu não sei o que se passa. Se algum dia realizarei os meus sonhos, se estarei como todos a dizer que sonhou até certa idade e depois acordou para o mundo. Talvez eu nunca venha a escrever. Talvez eu continue a ligar às coisas bonitas mas materiais. Talvez eu adormeça, sem querer, o meu amor pelas letras, pela leitura, pela expressão. Todos estes fantasmas deveriam desaparecer, este meu interior que me puxa para o subsolo - que me torce os tornozelos e me faz não escrever. Talvez eu nunca tenha em mãos milhentas folhas com palavras que escrevi e chorei, que amei e odiei - mas que acima de tudo as senti. Talvez nunca ninguém me leia nem chore com o que de mais podre e doloroso há em mim, que é o que me faz escrever. Um cheiro nauseabundo, horrível aos olhos e limpo à alma, que me embala para uma ratoeira de emoções da qual me custa tantas vezes sair. Não gosto de dizer que é injusta a vida, porque acredito realmente que somos nós que a desenhamos. Mas queira o mundo que um dia eu encha uma prateleira do coração de alguém.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Espaço em branco. II

Acho que a pior parte da perda são daqueles que a sentem. São "os que cá ficam" que se vêem forçados aprender a viver com um espaço em branco dentro de si. São esses que vivem com as lágrimas, as saudades e as memórias. E viver com pessoas saudosas é tão doloroso que não há palavras no mundo que o descrevam. O que é ver nos olhos da nossa família a sua saudade, a sua dor, o seu amor a transbordar por aquela pessoa que não existe mais. E nós com vontade de dar a vida para que aquele tormento acabe. Porque se há coisa que custa é viver com o para sempre. Porque o sempre pode ser até daqui a 5 minutos, como pode ser daqui a 50 anos. E é essa imprevisibilidade que me corta a alma. Que me corrói o coração sempre que penso e sinto toda esta falta, esta angustia pelos que sentem ainda mais a falta do que eu.

Eu dava anos de vida por ti. Voltava atrás no tempo, tudo para que te pudesses ter despedido e vivido mais mil aventuras para além daquelas que tu me contas. Eu dava a vida para que tu tivesses muitos e muitos mais anos pela frente. Para que não percebesse na tua voz e nos teus olhos azuis a saudade que sentes dele. Que não sentisses a necessidade de me transmitir o quão orgulhosa eu devo de estar por ter tido alguém como ele na minha vida, por mais pouco tempo que tenha sido. Eu dava anos e saúde por ti. Todos. Para que não houvesse essa magoa escondida na tua voz sempre que lhe dizes o nome. E principalmente dava-te os meus anos de vida, para que nunca tenha um dia de te perder a ti também.

Espaço em branco.

É uma dor em desassossego. É uma tortura à alma, é um não-sei à percepção humana. É uma dor só nossa, que cada um sente e reage a ela à sua própria maneira. Perder alguém de quem gostamos faz-nos perder algo de nós também. Porque nós somos feitos de fragmentos, e essa pessoa pode ser umas gramas disso ou pode ser tudo e nós ficamos sem chão. A sua destruição destroi-nos a nós também, e tudo o que te destroi destroi-me a mim também. Não há ânsia como esta, de um dia olharmos para o lado e ter alguém como uma garantia natural e ela foge-nos por entre os dedos como um troque mágico daqueles que ninguém percebe e que a todos impressiona. É a pior das mágoas e a dor que mais doí. Mas também é a que nos ensina mais. Perder alguém mais do que um espaço em branco no nosso coração, é uma lição à vida.