E quando se sente que talvez o melhor é desistir, o coração aperta como nunca antes. Engole-nos os suspiros, quebra-nos os ossos e fraquejamos perante a nuvem negra do óbvio. É uma imensidão sangrenta esta que me acompanha. Esta mesma que nos trespassa - uma mão sem futuro e um peito sem pulmões para gritar.
Não há amparos para este vazio que sinto hoje dentro de mim, esta dor insólita de solidão e luta pela necessidade de expressão. Se eu nunca mais for a mesma, amar-me-ás mesmo assim? O barco naufragado do meu passado já passou por estas ondas turbulentas, já levou muitas pancadas - já abandonou e já foi abandonado. Qual é a voz que nos faz ter aquela vontade de sair da sombra das flores e gritar? Mesmo sem pulmões, mesmo sozinha no mundo; que voz é essa que as pessoas têm em si que eu não tenho? Quem é que lhes lambe as feridas quando elas são interiores?
Não ter emprego faz com que nos seja fácil trocar as voltas aos horários do sono, mas se o motivo for a escrita, então não me importo de nunca mais voltar a dormir.
domingo, 31 de março de 2013
sábado, 30 de março de 2013
paragem zero.
Escrever dói. E eu moro dentro de um balão. Numa bolha de ar cheia de picos, límpida e disforme como o teu coração. É nela onde me encolho, retorço e escondo os ouvidos das maleitas exteriores... Há um turbilhão de emoções que me embalam, que me adormecem desta dureza que é decidirmos a nossa vida; desta angustia que é ter de viver com as acções dos outros e não termos o total controlo do nosso destino. Daquilo que nos afoga, que nos consome sem piedade. Há dias em que morro ao acordar - e há dias em que nem sequer acordo. Não sinto o odor do oceano que já foste em mim, não sinto nada. Só esta pequena tempestade dentro do meu copo interno, como se um navio estivesse a partir e eu não fosse veloz o suficiente para o alcançar.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
O amor.
"Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço, e nunca mais se viram. 23 anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva à sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse à sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse e... foi assim."
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Tu.
Ontem apercebi-me que mesmo sem notar, me lembro de ti todos os dias. Isto porque a tua casa, ou antiga casa, faz parte do meu trajeto diário para a minha vida quotidiana. E espreito - muitas vezes involuntariamente - sempre naquela direção, de olhos colados ao vidro do autocarro, na esperança de te ver, mesmo que de longe, para ver como estás. Como és, no que te tornaste... Mas nunca te vejo. Sempre te foste embora? Tenho tentado entrar em contacto contigo, envio-te mensagens. Não as recebes? Ou apenas não lhes respondes? Não te consigo deixar em paz porque eu também, volta e meia, não me sinto em paz. E só quero saber como estás, se estás feliz, como tens andado. Pensa em mim como alguém com quem poderias ocasionalmente ter dois dedos de conversa. Recusavas isso a um estranho?
O meu numero é o mesmo. Por favor. E não me perguntes porque me preocupo e o porquê de precisar de saber se estás bem, eu só o sinto.
domingo, 27 de janeiro de 2013
um lugar vago.
A chuva caia exactamente com a mesma intensidade com que caíra no dia anterior. Audaz e segura, forte e persistente... Precisamente tudo aquilo que eu não era, nem conseguia ser por mais que fingisse. O ar cheirava a orquídeas, a passos vagos na praia e a memorias. Sentia o peso do teu corpo no sofá como se ainda a segundos lá estivesses estado e não à 2 anos como conta a verdade; a tua mão descontraidamente pousada na almofada e a cabeça recostada inclinada na minha direcção onde me espreitavas ocasionalmente pelo canto do olho, sempre com o teu medo de que eu me fosse embora - quando na verdade, e ironicamente, foste tu que partiste. E eu que nunca tive medo agora vivo apavorada, de coração preso à tua ultima imagem neste sofá junto a mim com o todo o teu calor e amor.
Tu foste tudo aquilo que alguma vez tive de bom em mim e por isso não te consigo odiar: foste demasiado bom durante muito tempo para um dia na nossa vida me fazer mudar todo o amor e admiração que tenho pelo ser humano que és. Não me importo se me deixaste de um momento para o outro, se chorei noites seguidas sozinha nesta casa tão grande, se me senti desprotegida em relação ao mundo. Tu foste o meu sonho e sei que eu fui o teu também. E por mais assustador que seja este presente sem ti, nada apaga um passado maravilhoso ao teu lado, pois eu amar-te-ia por mais dez, vinte ou cinquenta anos.
domingo, 23 de dezembro de 2012
morrer sem ti.
Um dia compreenderei essa magoa que te persegue. Um dia morrerei sem ti e nesse dia estarei mais vazia, mais sonolenta, mais apática e mais dorida do que alguma vez estive. Sentirei o arrependimento e a angustia de cada dia da tua vida que sofreste por mim, mas ouvirei lá no fundo o som da tua gargalhada tímida e do teu abraço quente. Cair-me-ão as mesmas lágrimas que caíram quando te perdi, quanto te deixei neste mundo sozinho. Quando fui cruel a ponto de te tirar o sentimento mais doce e profundo que alguma vez tiveste e transformá-lo em nada... Nunca me esquecerei das palavras que me disseste, nem uma, nem o conforto que elas me traziam ao coração, ou as agulhas que elas também me espetaram nos pulsos. As más e as boas, todas elas no baú do meu alçapão. Quentes. Fortes como tu e confusas como eu.
Eu escreverei sobre ti para sempre. E obrigada por isso. Obrigada do fundo do meu coração, por todos estes anos seres a maior inspiração da minha vida. Tu ensinaste-me o mundo, e eu ensino uma coisa ao mundo: o tempo não cura nada, absolutamente nada.
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