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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

mundo ímpar.



E depois regressamos à ambiguidade das situações, e vemos que tudo muda. Tantas vezes para pior, algumas para melhor. É a impaciência uma virtude que não nos permite estar sem lutar, sem querer, sem desejar. É um novo olhar de soslaio aos defeitos e as qualidades, é o querer-mais-do-que-tudo sempre com demasiado coração e pouca cabeça. Se a cabeça um dia me cai, pego num barco e percorro o mundo. Tenho o coração em todo lado e em lado nenhum.

sábado, 3 de dezembro de 2011

"triste sina é..."

A solidão é um mal tremendo. Porque ela nasce dentro de nós, porque somos nós que a fazemos com as nossas acções. Eu afastei o céu e o mundo, pelo coração. Julguei que, tendo todo o coração do mundo, não precisaria mais do céu e do mundo. E realmente não precisei durante muito tempo. Mas agora sinto a falta de tudo. Porque não há mundo, não há céu e nem sempre há coração. Há solidão. Há a ausência por mais estranho que isto soe. E eu não consigo viver sozinha. Porque já resguardo demasiado para mim tendo o mundo, o céu e o coração quanto mais quando não tenho nada e eu própria transformo-me numa bola de neve. Porque tudo está em mim, e eu enlouqueço. Faço de tesouro, de mapa e de pirata. Tudo numa só pessoa. Tudo apenas em mim. E eu não consigo. Não consigo estar só porque enlouqueço. Porque estar só tira-me a capacidade de conquistar não só o que me falta como aquilo que nem imagino. Estar só, como me sinto hoje e nos últimos todos, tira-me a ânsia de racicionar - e por isso choro. Choro porque tenho em mim guardadas todas as frustrações do mundo: as minhas, as que oiço dos outros, as que imagino e as que anseio. Mas não as solto, nem com o coração que nem sempre me escuta, nem como céu que já não me pertence. Estão cravadas em mim como espinhos da rosa. E doem tanto ou mais. Furam tanto ou mais que a pele não se restaura mais.

domingo, 16 de outubro de 2011

ego.

Eu sou tudo e não sou nada. Sou o teu mar longínquo e a terra que pisas diariamente. Sou a música que cantarolas no banho, sou o som do búzio que apenas alguns ouvem. Sou o vidro mais bem limpo e os cacos partidos e esquecidos no soalho. Eu sou o teu transporte público para o destino e o jacto privado para a salvação. Sou a esperança de um coração desenhado e a faca que não perfura nenhum peito. Eu sou o bem e o mal. A cor e o invisível. O preto do mundo branco, e o branco de um mundo dolorosamente preto.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

everything.

Alecrim solidário. De cheiros mil e gritos trinta. Olhares cruzados pelos ares históricos. Em que pedaço de céu voou o primeiro avião? E quem o guardou num frasco? Às primeiras gotas de agua onde os navios dos descobrimentos flutuaram. Quem as tem? Emolduramento das primeiras folhas da primeira árvore do mundo que caíram. Dissecação do primeiro e último ser vivo a falecer no planeta. Crescimento mórbido dos desejos, fuga da simplicidade. Admiração pela honestidade, esses trilhos percorridos com turbulências. Faíscas dos maiores e piores raios sobre a primeira pele humana que não apodrece.
O amor, tal como a vida, é uma fórmula que infelizmente não está disponível a todos.

morte escolhida.

Se o cachecol te aconchegasse verdadeiramente a garganta, não morrerias enforcado. Estarias antes quente, aconchegado, embalado num sono perpétuamente doce. De cheiro a alfazemas, a mel e cerejas congeladas e não a toda essa podridão. Terias os olhos num brilhante azul esverdeado devido à magia e à auto-satisfação e não esbranquiçados. Terias sido mais homem. Mais corajoso senão tivesses morrido. Mas pelos vistos não o eras, ou talvez, nem o nunca tenhas sido.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

tributos.

A ti, alguém que és, que me demonstras constantemente a diferença ténue entre o calor e o frio, entre a compaixão e o ódio, entre a morte e o nascer. A ti, lua de todas as noites desafogadas, que me embalas no teu relento, escuridão e silêncio obsceno. A ti, voz insana que tanto escuto, por todas as lições, surpresas, desilusões e esticões na pele a que me expuseste. A ti, meu longínquo e rosado mar, que me colhes com toda essa imensidão arrepiante, que me julgas quando te envio pedras. A ti, sentimento mútuo, que te reproduzes, embrulhas e desfazes à mesma velocidade com que me lavo para te tirar do corpo. A ti, amor que tanto me consomes, desolas e provocas. E a ti, meu amor algures, que tanto me casas, foges e atormentas mais que qualquer outra coisa no mundo.

paladares, línguas e (des)gostos.

O coração reparte-se. Entre o livro e o feiticeiro. Entre a cabra e o guião. A mascara cai, lenta e trémula que só ela. Vinga o clarão de luminosidade a uma esfregadela dos olhos, uma dor de cabeça e um palavrão. O coração corrói-se, quente, esponjoso e preto. Preto como a pele que camufla o ser ou não ser. Vêem os navios com os gregos, os cavalos com os troianos, vêm as palavras de outra época e o cheiro que ladra no ar. Humedece a ocasião, num coração que esmigalhado se refresca. Lambe-se a si próprio para uma noção final daquilo de que era realmente feito. Também nós nos deveríamos lamber mais vezes - para nos apercebermos do que está mal em nós, para evoluirmos e termos um melhor sabor.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

à tua memória.

Eu irei sempre falar de amor, porque me lembra de ti. E ainda que já tenhas voado num manto de purpurinas e vento de Inverno, o meu coração ainda se embala de noite ao som das tuas memórias. Tenho um alçapão refundido debaixo da cama, e sempre que o abro ecoa a tua voz, o teu bocejar, o teu riso. A tua voz pinta-me as paredes em tons pasteis nos dias de maior tormento de saudades, e de cores vivas quando sonho contigo e acordo a sorrir. És a primavera no gelado Antárctico e na minha alma também. Do sol luminoso lá no alto e a terra molhada no chão que piso descalça. Eu correrei sempre por ti, amor meu, já que a vida me proibiu de correr para ti.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

localização.

Eu gostava. Gostava de muita coisa que não encontro, que desconheço o caminho até elas. Eu gostava de soluções. Gostava da mais banal máxima de todas, a tal de paz e aquele outro, o amor. Eu gostava deles. Eu gostava deles até não ter forças para sequer respirar, eu ansiava-os de tal forma fugaz e angustiante que sofri cada milésimo de segundo enquanto não os reconheci lá ao longe na linha do horizonte. Foi a luz do farol, foi a ultima onda - mais forte e poderosa de todas - que me abalou, e fez-me imergir num estado melancólico que não conhecia tão sofredor até outrora.

sábado, 16 de abril de 2011

mergulho interior.

As navegações interiores são feitas em alto mar. Embaladas pela ondulação, cheia de vitalidade e imparcialidade. Como uma pequena vida própria de temperatura amena, que apenas observa mas não surte opinião ou juízos de valor. Que apenas ilumina secretamente caminhos, como por engano planeado, dando uma ajuda mas nunca fazendo tudo por algo. Há que bater de chapa primeiro e depois sim aprender como movimentar o corpo de modo a penetrar esse oceano num maravilhoso e perfeito mergulho.

terça-feira, 12 de abril de 2011

sem ritmo.

É bateria quebrada este lamaçal interior. Esta devoção natural, crua e realista. Como uma brisa que provêm dos olhos fechados, dormentes das maleitas transversais ao seu infinito horizonte. Cheira a alimento traiçoeiro, um veneno voraz e silencioso. As gotículas de saliva espalhadas, num todo leito de saudade por um amor antigo, que não murcha nem quebra. É o amargurar da falta, da ausência, do desconfortável medo da verdade.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

da vida.

O vazio abunda. Arrasta-se pelo areal, pela inexistência de vida humana real. É um abandono tal, como pó esquecido por debaixo do tapete carmim. O ritmo cardíaco balança-se de acordo com a sinfonia majestosa de uma valsa perdida no canto mais refundido da sala. Os laivos de arte estética sobressaem face às fragrâncias de emoções. Num enterro mediano, em dia chuvoso e repousante. É efémera a doença da mente, louca, débil, vanguardista. As incógnitas são penduradas num estendal, de janela a janela, por molas coloridas seguidas - como quem é obcecado pela irritante organização. Também o coração deveria sê-lo. Assim, organizado. Mas está antes deitado sobre o pó esquecido, por debaixo de um tapete carmim.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

bird words

Há dias em que as palavras esvoaçam pelo infinito dos céus e é muito difícil captura-las. Tê-las de novo no nosso leito, no lar, na maternidade da sua bela existência. É difícil prendê-las numa gaiola - como pequenas aves - para que, quando necessárias, as tivéssemos à disposição. Mas se há porventura aves ás quais elas são idênticas, são-no ás aves-migratórias. Elas morrem se ficarem enjauladas à espera de funcionalidade. Precisam muito da sua própria liberdade de expressão. É louco, não? Pensar nas palavras como pássaros capazes de se alentarem a eles mesmos. Mas é assim que as vejo. Insatisfeitas, sempre necessitadas do perfeccionismo. Dos louros quando bem elaboradas. Das penalizações quando o erro é superior à intenção. É uma metamorfose particular. Única e muito bonita. A formação pormenorizada das sílabas, a construção da palavra e a conjugação frásica. Não é mais do que uma dança. Uma valsa, um enlaçar de experiências e significados. Um acasalamento puro, sem maldade, sem promiscuidade, apenas simplicidade. Cada acento que as acentua ou minimiza, cada pontuação que lhes dá continuação ou as termina. É tudo uma melodia. Ou talvez, muito mais que uma melodia. Uma digna constatação de um facto duvidoso e sujeito a alterações. Das mais doces com chuviscos leitosos, ás mais amargas com tempestades esbatidas.